Piracicaba

Que educação temos para comemorar? Dados expõem violência, adoecimento docente e dificuldades na aprendizagem

Pesquisas da OCDE, do Inaf e de entidades educacionais revelam o contraste entre as homenagens aos professores e as condições de ensino no Brasil, com consequências para a formação dos estudantes e a produtividade do país.

Professores brasileiros enfrentam sobrecarga de trabalho, adoecimento emocional e violência nas escolas, em um cenário de desvalorização profissional e dificuldades na aprendizagem. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.
Professores brasileiros enfrentam sobrecarga de trabalho, adoecimento emocional e violência nas escolas, em um cenário de desvalorização profissional e dificuldades na aprendizagem.

O Brasil chega às homenagens ao Dia dos Professores com indicadores que expõem a distância entre o reconhecimento público à educação e a realidade das escolas. O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) mostrou que 29% dos brasileiros de 15 a 64 anos permaneciam nessa condição em 2024, mesmo percentual de 2018. No Pisa 2022, 73% dos estudantes brasileiros de 15 anos não alcançaram o nível básico em matemática.

Os números não anulam avanços. Segundo o IBGE, o analfabetismo da população de 15 anos ou mais caiu para 4,9% em 2025. Mas revelam uma diferença decisiva: ampliar o acesso à escola não significa garantir aprendizagem.

A situação de quem ensina exige atenção. Na pesquisa Talis 2024, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas 22,3% dos docentes brasileiros dos anos finais do ensino fundamental declararam satisfação com o salário. Cerca de 21% relataram estresse intenso, e 16% afirmaram que o trabalho prejudica muito sua saúde mental.

A insegurança completa o quadro. Pesquisa do Centro do Professorado Paulista com docentes da Grande São Paulo em 2025 identificou que 65,6% dos entrevistados já haviam sofrido agressão na escola e 74,4% não se sentiam seguros em sala de aula. São dados regionais, não nacionais.

O adoecimento tampouco se resume a percepções. Estudo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar, baseado em registros previdenciários, apontou aumento dos afastamentos por transtornos mentais entre professores, com destaque para ansiedade e depressão.

As consequências ultrapassam as escolas. A Fundação Getulio Vargas estimou crescimento de apenas 0,4% da produtividade por hora efetivamente trabalhada em 2025. No Índice de Capital Humano de 2020, o Banco Mundial estimou que uma criança nascida no Brasil alcançaria 55% de seu potencial produtivo com as condições de educação e saúde então observadas. Os indicadores não estabelecem causalidade direta, mas mostram a importância da formação para a economia.

A educação merece reconhecimento pelos avanços reais. Os dados, porém, exigem mais do que homenagens: proteção aos docentes, condições dignas de trabalho e compromisso com aquilo que os alunos efetivamente aprendem.